terça-feira, 5 de abril de 2016

Ternura

 Luisa gostava de sair, ver gente. Principalmente sozinha e para bares, restaurantes e afins. Gostava muito mesmo de ouvir pessoas falando, pescar uma conversa aqui, outra lá e assim ir juntando conversas alheias. Adorava dar opiniões mentais em vidas de pessoas que ela só conhecia o som da voz e algum fato um pouco descontextualizado. 
 Certa noite, ela resolveu que iria a um barzinho diferente que ficava há uns 15 minutos de sua casa. Sentou-se no banco de seu carro e colocou uma de suas músicas favoritas. Seguiu assim para lá.
 Chegou no local não tão cheio, viu uma mesa vaga bem no canto do bar e se sentou. Ao seu lado se encontrava uma moça que tinha, no mínimo, 23 anos. 
 Ela tinha cabelos longos, castanhos escuros que estavam presos em um coque simples, assim como o restante de suas roupas. Nada muito elaborado. Sua cara lavada provava que há pouco tempo a mesma havia se desmanchado de chorar. Os motivos? Luisa não teve coragem de perguntar por mais que quisesse ajudar a jovem mulher. 
 A moça que provavelmente não percebeu a presença ao seu lado, se levantou, deixando seu casaquinho preto no encosto da cadeira. Ela pensou em avisar que a blusa havia sido esquecida, mas viu que a moça não saía do bar, mas sim entrava no banheiro. 
 Luisa pediu um refrigerante. A moça retornou. Agora com os olhos e o rosto menos inchados. Sentou-se em seu lugar e pediu um suco. Esperou a garçonete sair, pegou sua bolsa e tirou de lá uma caneta. Pegou também um guardanapo e começou a escrever. 
 Luisa tentou ler, mesmo sabendo que era falta de educação, mas não conseguiu ler tudo. Pode-se dizer que ela no fim mais deduziu palavras do que realmente leu, mas percebeu o que estava acontecendo com a jovem:
"Por muito tempo você foi minha inspiração. 
Provavelmente ainda vai ser.
Por favor, vá buscar as pinturas que fiz pra você amanhã à tarde,
Eu ainda amo você."
Luisa não sabia o que dizer. Ela só queria abraçar a moça e dizer que tudo ia ficar bem. Ela não teve coragem quando viu a menina começar a chorar novamente. 
A única coisa que pode fazer foi pegar uma caneta de sua bolsa, um guardanapo e escrever um recado para a jovem.
"Seja lá o que tenha acontecido, vai ficar tudo bem. Eu sinto muito."
Deixou o papel ao lado do braço da jovem em cima da mesa. Deixou também um sorriso que ela devolveu e se dirigiu ao seu carro. 
Luisa foi para sua casa feliz, apesar de tudo. Estava contente por ter sorrido para quela moça. Sabia que ela precisava de ternura e foi isso que ela tentou dar.

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